Opinião sobre as principais consequências desta pandemia na sociedade, em termos económicos e/ou sociais

Neste momento já constatámos que a pandemia acarretou uma crise económica profunda da qual só ainda não temos a certeza das proporções que vai atingir. Socialmente mexeu com o nosso estilo de vida, que tínhamos por adquirido. A presencialidade, aliada a uma cada mais elevada mobilidade geográfica, era uma característica dominante da nossa sociedade do séc. XXI, com acentuados fluxos de pessoas e bens em constante movimento.

De repente o mundo inteiro parou, em sintonia com uma mesma preocupação de saúde pública e (re)começa agora a mover-se, mas devagar. O tempo em que o quotidiano acontece alterou-se e mais ainda o espaço social. O confinamento representou um regresso à esfera doméstica para muitas pessoas, mas agora com a novidade do teletrabalho. O teletrabalho era discutido nos anos 90 do século passado como uma grande potencialidade que poderia mudar o mundo, mas na verdade foi necessário que a mobilidade fosse restringida para que efetivamente este modelo se impusesse.

A grande questão que ainda não conseguimos responder é: agora que experimentámos na prática, vamos efetivamente aderir ao teletrabalho quando já não formos obrigados à imobilidade? Importa perceber que diminuir a presencialidade tem custos e não são só sociais e psicológicos, são também económicos. É por isso que é complexo dizer exatamente como a realidade social se vai configurar nos próximos tempos, contudo olhando para os resultados do projeto Mild20s, que vão no mesmo sentido de outros estudos que têm sido realizados sobre expetativas e intenções das pessoas, notamos que há uma forte vontade de mudar para modos de vida mais sustentáveis. Tendo em conta que antes disto já se sentiam alguns ventos de mudança no ar que se consubstanciam em padrões e estilos alternativos de pessoas, empresas e grupos, pessoalmente o que acredito é que a mudança social vai marcar fortemente os próximos tempos.

Catarina Sales – UBI

Os resultados da campanha TheMild20s ilustram tendências que outros estudos já nos têm indicado, nomeadamente: que são sobretudo pessoas jovens, habilitadas – apesar de não haver informação sobre as habilitações dos e das respondentes, o facto de se tratar de um projeto universitário e a lógica das redes de comunicação entre pares indicia que devemos estar perante uma população de respondentes de jovens universitários. Destes são as mulheres quem mais se interessa pelas temáticas da sustentabilidade e do ambiente (Schmidt e Delicado, 2014). Podemos enquadrar também estes dados na linha dos novos modos de vida emergentes, muitas vezes apelidados de alternativos, que destacam opções mais saudáveis e mais sustentáveis (Mendes, 2012; Silva, 2016).

Olhando para os indicadores referentes à disseminação e alcance da campanha parece, ressalvando que esta relação para ser estabelecida com rigor necessitaria de um estudo longitudinal comparativo e com recurso a amostragem representativa, que o atual contexto de crise sanitária foi um contexto favorável ao acentuar destes interesses e preocupações já existentes.

Um dado muito curioso é o tempo em família aparecer como uma prática que as pessoas inquiridas pretendem dar continuidade, a par da prática desportiva e da leitura. Este resultado é particularmente interessante se tivermos em conta que quem o diz são jovens adultos/as, uma faixa etária em que se espera que a prioridade relacional e afetiva seja dada ao grupo de pares (Ferrigno, 2015). Parece, portanto, que a experiência de confinamento foi vivida e percebida como fortalecedora dos laços familiares, criando rotinas familiares que agradaram às pessoas inquiridas e que por isso as querem manter. Este dado é demonstrador de que a família (nuclear) permanece um referencial de elevada importância para os e as jovens (Cepeda, 2018), contrariamente à ideia muitas vezes mal difundida de crise ou até morte da instituição familiar.

É também significativo que as pessoas se sintam cansadas apesar de estarem em casa e se deslocarem muito menos. Esse cansaço assinala a elevada demanda de trabalho (escolar, académico e profissional) que tem sido mencionado em debates nas últimas semanas. Aparentemente houve uma tendência para compensar a ausência física com uma carga maior e eventualmente desproporcional de trabalho autónomo. Isto demonstra que não sabemos ainda gerir tarefas e papéis neste contexto, estamos em processo de aprendizagem, o que tem feito quem tem responsabilidades de gestão de pessoas (profissionais, mas também docentes) aumentar ou complexificar as tarefas atribuídas como forma de materializar o trabalho, de ter evidências concretas e palpáveis na ausência da interação direta entre os interlocutores do processo educativo/profissional.

Em suma estes dados são reveladores de algumas linhas de atuação e perceção perante a situação atual que se prestam a interessantes reflexões sobre o futuro em construção.

Referências:

Cepeda, Carolina (2018). Rituais familiares e esperança em jovens adultos: o papel mediador do sentido da vida (dissertação de mestrado) Lisboa: UL

Ferrigno, José (2015). Conflito e cooperação entre gerações. São Paulo: Edições Sesc.

Mendes, Solange (2012). Os mass media e os estilos de vida saudáveis: a percepção das mensagens publicitárias sobre alimentação saudável e exercicio fisico (Tese de doutoramento). Lisboa: Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas).

Schmidt, Luisa, & Delicado, Ana (2014). Ambiente, alterações climáticas, alimentação e energia: a opinião dos portugueses. Lisboa: ICS. Imprensa de Ciências Sociais.

da Silva, Ailson  (2016). Da problemática urbana à emergência da vida associada à natureza. Revista Tamoios, 12(2). Pp. 112-123

Rosa Carreira – CooLabora

Penso que haverá mudanças que decorrerão da crise financeira que está agora a começar a afetar muitos países em todo o mundo, e outras que se prendem com a reflexão provocada em muitas pessoas, e também movimentos sociais um pouco por todo o mundo.  Mas também acho, segundo o que ouço e leio dos/as especialistas, que a crise financeira será superada mais rapidamente do que outras que a antecederam, e vemos já as movimentações dos vários governos para a retoma da economia. Mas eu preferia ver os governos empenhados também numa retoma com mais consciência ecológica e social. E muitas pessoas partilham desta minha ideia. Senão, vejamos. Foi notório que as pessoas em situação de maior fragilidade económica e social estiveram mais vulneráveis ao desemprego e à quebra de rendimentos, o que evidenciou a injustiça social que domina as nossas sociedades. Foi notório também o que é essencial para a nossa sobrevivência enquanto seres vivos, mas também enquanto seres sociais. O estado continuou a providenciar os serviços essenciais como sejam a saúde, a educação, a segurança e até a cultura, e outros serviços privados, como os que resultam da produção agrícola ou outras ligadas à alimentação, continuaram sem grandes quebras, tendo havido até um aumento da procura das produções locais e uma sensibilização para a importância de apoiar a produção local.

Por outro lado, as pessoas encontraram formas alternativas de continuarem a ser seres sociais, com uma miríade de exemplos conhecidos. Os computadores e telemóveis, mas também as varandas e janelas das casas de cada família, passaram a ser lugares de fala, de troca de mensagens, de troca de serviços. Geraram-se várias ondas de solidariedade vindas de pessoas, de organizações e de empresas.

Foi notório também que, devido à diminuição da atividade humana, o planeta mostrou que estamos a tempo de não o destruir, e com ele a própria Humanidade.

Por tudo isto, eu penso que a perceção, por um lado, de que face a uma crise global é possível mudar radicalmente a nossa forma de funcionar enquanto sociedades e as ações positivas que surgiram, por outro, nos darão também uma nova perspetiva sobre o que pode ser o futuro. Quero acreditar que as pessoas se tornaram mais conscientes de que dependemos uma das outras; de que os ecossistemas estão a sofrer devido ao nosso egoísmo enquanto consumidores/as desenfreados/as; de que a nossa sobrevivência, enquanto espécie, pode ser posta em causa pelos desequilíbrios que causamos no planeta e não apenas por uma possível 3ª guerra mundial; de que podemos diminuir a nossa pegada ecológica com gestos simples, que não diminuem a nossa qualidade de vida; de que o altruísmo pode ser contagiante,  até mais do que o vírus que nos levou a esta situação inusitada.

Sei que muitas pessoas continuarão a lutar pela sua sobrevivência e pouco mais poderão fazer, mantendo o estilo de vida que levavam. Mas também sei, muito graças ao trabalho que desenvolve a CooLabora – a organização não-governamental a que pertenço –, que muitas sementes de mudança foram lançadas por todo o mundo, e que hão de germinar.

Carla Sofia Nascimento – UBI

O mundo foi invadido por o SARS-CoV-2, este vírus do qual ainda possuímos pouca informação epidemiológica, deu origem a uma doença denominada por COVID-19, doença essa que foi declarada como pandemia pela Organização Mundial de Saúde.

Face a este cenário pandémico a vida, tal como a conhecíamos, mudou, vivemos agora numa “nova” normalidade que levou a uma necessidade de (re)adaptação em todos os contextos da vivencia humana. Esta nova realidade inscreveu vários desafios e reescreveu formas diferentes de ensinar, de aprender, de trabalhar, de conviver, de demonstrar afetos.

O trabalho deixa, em várias profissões, de ser executado em ambiente de presença física, para dar lugar ao teletrabalho. Esta “nova” metodologia de trabalho, para muitos trabalhadores, pode representar um problema de adaptação. Torna-se assim necessário e indispensável a separação da vida pessoal da vida laboral. Separação esta que nem sempre é fácil, levando, em alguns casos, a interferências no trabalho e na família, enquanto surge a pressão e o stress na tentativa por demonstrar que continua a ser tão produtivo como antes, o que pode acarretar aumento de stress, ansiedade e Burnout.

A par desta alteração laboral surge, em associação a esta pandemia, uma degradação económica e financeira em muitas famílias, diminuição dos rendimentos mensais, perda de trabalho e o consequente aumento de desemprego. Entramos assim, numa crise económica, que potencia, em várias famílias, ao surgimento de angústia face ao futuro, sintomas depressivos e de ansiedade, bem como vergonha ou culpa, ou seja, um enorme conjunto de emoções e sintomas negativos que pode potenciar o surgimento de perturbações psicopatológicas.

Estamos por tal, num tempo, numa era de diversas mudanças, nas quais as relações sociais e familiares são alteradas, seja por motivos profissionais, por confinamento social, voluntário ou profilático, seja por medo ou pânico.

As famílias, que podem continuar a conviver, estão confinadas ao ambiente e espaço familiar e este pode tornar-se um contexto de stress e incerteza despoletando, em vários casos, diversas formas de violência. As relações familiares, nem sempre fáceis, tornam-se agora mais complexas. E para as outras famílias, para aquelas, que se mantém à distância com receio da transmissão familiar do vírus, esta distância entre famílias, por vezes necessário, afeta sobretudo os mais idosos, com a impossibilidade de visita dos filhos e netos. Esta partição familiar pode acarretar sinais e sintomas de ansiedade, depressão e pode levar a stress póstraumático em todas as faixas etárias. Urge a necessidade de apoio a estas famílias, principalmente mais debilitadas, seja financeiramente, ou do ponto de vista da saúde física e mental.

A pandemia por Covid-19, afetou todas as áreas sociais e económicas de forma mundial, em todas as faixas etárias.

O ensino presencial, deu lugar a um ensino à distância, para o qual nem todos estávamos preparados. O quadro preto, surge agora numa tela branca onde o docente inscreve, de forma virtual, os conhecimentos que considera mais pertinentes e importantes de serem transmitidos aos seus alunos. Os alunos, por seu turno, observaram, também eles à distância, entre si e do professor, as várias temáticas que vão sendo debatidas. A comunicação tornou-se um pouco mais difícil e a relação ensino/aprendizagem foi modificada, a sala de aula tradicional ocorre agora moderada por dispositivos tecnológicos sem interação física. Todas estas alterações psicossociais, nas quais se incluem os mecanismos inerentes ao ensino e aprendizagem trarão, certamente, custos e benefícios. Torna-se necessário, que os professores se reinventem na sua profissão, com a criação de novas e diversas formas de transmissão de conhecimento que durante anos realizaram em ambientes físicos e presenciais.

As crianças, os adolescentes e os jovens adultos, em todos os graus de ensino, também eles confinados e obrigados a uma adequação a um estilo de ensino que até ao momento desconheciam, também eles com medos, dúvidas e incertezas face ao futuro, estão a sentir o peso de uma nova realidade para o qual não foram, nem estavam, preparados. Durante vários anos debatemos a relação nefasta do tempo de contacto das nossas crianças, adolescentes e jovens adultos com as novas tecnologias, e argumentava-se sobre a necessidade de uma socialização mais ativa e física. Atualmente, exigimos o “tudo on-line”, inclusive as aulas. Se estas medidas são necessárias, são também eventos stressores, o medo da infeção, a frustração, o tédio, o cansaço, informações desnecessárias e por vezes desadequadas, alterações dos padrões de sono-vigília, alterações alimentares, a falta de contacto com amigos e colegas, bem como, em alguns casos, a falta de espaço pessoal e o receio da perda financeira familiar. Enfim incerteza no futuro. Todos os alunos, de todos os graus de ensino necessitam de alterar as suas formas de aprendizagem, o ensino torna-se mais autónomo e também mais solitário, a focalização da atenção é agora, ainda mais, complicada, a motivação nem sempre ocorre da mesma forma, a distração é maior, a dificuldade de gestão de tempo é mais evidente.

Mas ouvimos também, que o mundo mudou, ficou menos poluído, o ar é agora mais respirável, as águas mais límpidas, o barrulho, muitas vezes infernal do transito, dá lugar aos sons da natureza. O mundo, neste momento tem cores mais nítidas e brilhantes. Aos poucos, nas ruas e cidades, que a pandemia obrigou a um voto de silencio, começamos a ouvir as vozes das pessoas, o riso das crianças. Aos poucos estamos a aprender a viver nesta normalidade possível.

A frase que todos ouvimos, e queremos ouvir, por estes dias é “vai ficar tudo bem”, a questão passa por: o que é que vai ficar bem? E o que é que vai mudar?

Esperamos que fique bem a nossa saúde, física psíquica e económica e não descoremos a saúde do planeta, agora que ele está mais saudável Esperamos que mudem as pessoas, que tal como já muitos referem que tenhamos vontade de estar com as nossas famílias, não com mais tempo, mas com mais qualidade de tempo, que os nossos hábitos de consumo apoiem a economia local, que as nossas atitudes sejam mais sustentáveis.

Se quisermos, junto podemos fazer mais, podemos fazer melhor, por todos e por cada um de nós.

 

Análise The 20

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